domingo, 16 de agosto de 2009

We're not gonna take it

Ok, aqui vai a explicação do que tem acontecido nas últimas semanas. Eu estava esperando o desfecho da história para poder postar aqui, mas parece que tal desfecho não acontecerá tão cedo: Saímos eu mais três pessoas para tomar uns drinks (tá, cerveja) na região boêmia da nossa cidade. Apesar do grande número de blitzes, preferimos arriscar (já pensou se eu fosse instrutor de trânsito?). Ao sair do buteco ninguém quis pegar o Trovão Azul (estou para mudar o nome dele desde que descobri que este é um codinome para Viagra). Sobrou para este humilde servo.

Trovão estava estacionado numa rua que fazia esquina com a Afonso Penna. Avenida esta que os americanos que estavam hospedados na casa do meu amigo Édio ano passado chamavam de “hooker street”. Ô orgulho! Tive certa dificuldade de entrar na avenida, onde havia uma pequena fila de carros combinando programa com travestis que rodavam bolsinha no local. Nada contra quem tem esse tipo de procedimento. O cu é seu, você faz o que quiser com ele

Provavelmente dentro dos veículos estavam respeitosos pais de família dispostos a experimentar coisas novas. É a única explicação, já que tem tanta mulher do sexo feminino fazendo programa por aí. E olha que travestis, por possuírem mais recursos, devem cobrar até mais caro. Alguns caras até são até bem gostosas, com o peito e o bumbum esféricos. Mas aqueles ali pareciam o vocalista do Twisted Sister. Com a cara cinza de barba e tudo mais.

Como o sinal na Afonso Penna estava aberto, fui obrigado a parar atrás do último carro. Até tentei dar uma olhada pra ver se o Ronaldo Brilha Muito no Curintia estava por ali. Aí você me diz: “E o que o senhor estava fazendo na Afonso Penna sábado de madrugada, hein?”. Embora a história pareça suspeita, tenho três pessoas que podem testemunhar que eu não estava pegando traveco. Não naquele dia.

O carro da minha frente aparentemente perdeu a paciência de esperar o da frente dele combinar o preço e deu ré. Nisso ele bateu no meu carro, provocando avarias no meu pára-lama, como a ocorrência policial rebuscadamente disse. Na mesma hora, Viviana, que estava sentada no banco de trás, falou:

- Diogo, deixa eu descer para xingar esse filho da puta.

Deixei a esquentada mocinha descer, e voltei a estacionar, para conversar amigavelmente com o cara, que perspicazmente disse para Viviana:

- É, bateu, né?

Logo depois arrancou o carro. Talvez não só para fugir de me pagar o conserto, mas principalmente pelo constrangedor cenário em que eu o peguei. Lógico que eu ia analisar a cara dele com aquele olhar: “Ah safadinho! Eu sei o que você estava fazendo!”. Fora que ele deveria ter de se explicar para possíveis policiais e, quiçás, para seus parentes. Viviana berrou:

- Anotamos sua placa, filho da puta.

Disse isso levantando os braços e movimentando-os no ar. Viviana é foda. Acho que essa menina é nordestina.

Ano passado eu bati num carro, mas chamei o tomador de conta e passei para ele meu nome e telefone. Isso é coisa de homem fazer. Quer dizer, não vou falar que o cara que fugiu não foi homem. Isso já tinha ficado óbvio no momento em que ele saiu de casa para pegar traveco.

Pessoal me falou para ir à polícia registrar queixa. Bem, isso seria difícil, já que eu tinha tomado alguns drinks (tá, cerveja). Por mais que estivesse certo, iria preso somente pela audácia de ter ido à polícia com hálito etílico. Esperei até o dia seguinte para ir à delegacia. Porém, no dia seguinte tinha um almoção. E você sabe: Almoção, cerveja; cerveja, almoção. Mas fui assim mesmo aos dois eventos. Leozão foi dirigindo pra mim.

Na delegacia havia quatro computadores bem no meio de uma salona, com várias pessoas encostadas na parede. Não entendi muito bem a dinâmica do local. Direcionei-me a um pitboy de camisa apertadinha sentado frente a um dos computadores:

- Perguntinha.

- Pois não, mermão.

- Como é o esquema de atendimento aqui?

- Aí, é sobre o que, cumpadi?

- Queria fazer uma ocorrência.

- Ocorrência de que, parceiro?

- Batida automobilística.

- Amizade, isso aí é somente no Detran, entendeu?

- Sóóóó.

Fui a três delegacias naquele domingo, tentando não deixar transparecer meu estado etilicamente alterado. As três me disseram que eu só ia conseguir resolver meu problema no Detran. E sabe o que eu concluí disso? Que somente o Detran ia resolver meu problema.

Segunda-feira fui à delegacia do Detran. Várias pessoas chegavam alteradas, direcionando-se para a pessoa que entregava as fichinhas de atendimento, batendo a mão no balcão e contando suas histórias. O cara da fichinha prontamente estendia a mão com um papelzinho com cara de “aham Cláudia, senta lá”.

Bati o recorde do Snake duas vezes enquanto estava na fila. Também aproveitei para dar um pouco de aula de legislação de trânsito para alguns que aguardavam atendimento:

- Fui pego de moto e sem capacete. Isso é multa leve não é?

- Isso mesmo.

- Isso dá quantos pontos? Dez?

- Exatamente. Alguém mais aí tem alguma dúvida? Você aí de trás.

Depois de um tempão chegou minha vez. E olha que minha fichinha estava escrito 02. Na hora que o atendente me pediu para relatar o ocorrido, não sei por que, comecei a falar como se fosse policial:

- Olha, eu estava trafegando na rua Ceará, convergindo na avenida Afonso Penna, confere? O elemento que estava na minha frente deu marcha ré, provocou avarias no meu pára-lama e evadiu do local, positivo?

Pensei: “Agora sim vamos ter um pouco de ação por aqui”. Momentos depois o atendente me estende um papel escrito o que eu tinha relatado a ele:

- Prontinho.

- É só isso?

- Ééééé.

Que legal! Agora tenho por escrito uma coisa que eu já sabia. Pensei: “O que eu vim fazer aqui?”. Na verdade, de uma coisa me serviu: Ali tinha o nome do dono do carro: Jeovany Silva M. Carvalhais. Rá! Agora eu vou fuder esse cara com areia! Se bem que isso deve agradá-lo. Procurei tudo que pude na internet sobre ele. Sim, até mesmo no Orkut. Ia chegar na página dele com um “me add, filho da puta?”.

Impressionante como, numa situação dessas, aparece um tanto de gente com contatos dentro da polícia ou do Detran, oferecendo ajuda. Tudo que achei foi que o nome dele apareceu num relatório das multas que não conseguiram ser entregues porque o correio não conseguiu achar o endereço dos destinatários. Ah, que animador! E as multas eram todas do Celta HJE-2677. O roda dura tinha cinco, ao todo.

Por acaso o nome do tal Jeovany apareceu na nova lista telefônica, que saiu na semana seguinte. Liguei pra lá algumas vezes, mas só fazia um barulho estranho. Não que eu quisesse resolver qualquer coisa por telefone. Se ele atendesse, eu desligaria e me dirigiria à casa dele. Como ele mora do outro lado da cidade, eu não queria correr o risco de chegar lá, não encontrar ninguém e perder viagem. Ainda mais naquele bairro sinistro, onde eu já tinha sido assaltado a mão armada. Oh sim, eu namorava uma menina de lá.

Decidi que ia lá no sábado de manhã, ouvindo uma musiquinha. Se eu não o encontrasse em casa, iria encarar a viagem como um passeio. Pensei em ir com uma faca de cortar pão debaixo da manga do casaco. Um homem prevenido vale por dois. Em lá chegando, uma doméstica me atendeu:

- Olha, a dona Jeovany está dormindo.

Oh! Jeovany é um nome feminino. Valiosa descoberta. Passei duas semanas odiando um nome, e nem era o nome certo. A empregada:

- Mas quando foi essa batida?

Achei que era muito enxerimento da serviçal, mas respondi. Ela me disse que o marido da dona Jeovany havia saído e que não sabia quando o doutor voltava. Resolvi atocaiá-lo na porta. Pena eu ter deixado minha camuflagem em casa. Não demorou muito até o véio chegar. Ele explicou-me de que o carro era do filho dele, que estava trabalhando. Descobri que o menino era caixa. Coitado, deve gastar o salário do mês inteiro com os travecos.

Minha mãe sempre me disse: “Quanto mais se mexe na merda, mais ela fede”. Baseando-se no sábio ensinamento, não mencionei nada sobre os travestis. Fora isso, a informação poderia ser usada como arma. O véio era solícito; deu-me o telefone correto da casa e me explicou o porquê de eu não conseguir ligar para lá:

- É que eu fiz um acordo com a GVT no nome da minha mulher. Mas acabou que eu desisti no meio do caminho.

Ficamos falando mal da GVT por alguns minutos, depois eu fui embora achando muito simpático aquele senhor. Mais tarde naquele dia liguei para falar com o filho dele que já foi se adiantando:

- Pode ficar sossegado, que eu vou pagar tudo.

Obviamente ele estava com medo de eu soltar a matraca. E olha que eu estava com a língua coçando. Concordei em ir na segunda-feira com o irmão dele até o lanterneiro da família. Que emoção! Agora eu conheceria toda a família Carvalhais.

No lanterneiro havia uma pequena comitiva, formada pelo irmão do pegador de traveco e cinco homens sujos de graxa, que tentaram desacreditar a minha história, mostrando que o Celta não tinha nenhuma batida. Eu pensando: “E eu quero lá saber de Celta? O que me interessa é o meu carro batido”. O acidente tinha sido duas semanas antes. Tranquilamente deu tempo de arrumar o carro e fingir que nada aconteceu.

O irmão talvez tivesse sido escolhido como representante da família porque falava alto. E grosso. E tinha um aperto de mão firme e sacolejante. Mas nada que pudesse intimidar Tio Didi. Ele ainda revelou que o pai tinha nove irmãos e que estava processando todos eles. Linda família com que resolvi me meter.

À noite liguei novamente para ver como resolveríamos aquela situação. Foi o pai quem atendeu. O senhor simpático tinha se transformado no capeta:

- Olha, esta nossa conversa está sendo gravada. Te aviso que, se você voltar a ligar aqui ou aparecer aqui na porta da minha casa, eu chamo a polícia. Você já está me importunando.

Se o que ele dizia era verdade, deu nitidamente a impressão de que eu era um psicopata. Porra, fui na casa do cara duas vezes só. E aquela era a terceira vez que eu ligava:

- Desculpe eu ligar a essa hora, mas me disseram que era o único horário em que eu encontrava seu filho em casa.

- Meu filho está dormindo na casa de um amigo.

Dormindo na casa do amigo? Jesus, tem pai que é cego mesmo. Esse aí camufla.

- E qualquer coisa que você quiser resolver, rapazinho, vai resolver comigo.

- Mas quem estava presente na batida era o seu filho. Ele já tinha assumido que bateu no meu carro.

- Olha, eu tenho um laudo da Chevrolet que comprova que nada no meu carro foi reparado.

Fiquei impressionado em como ele tinha arranjado um laudo da Chevrolet em menos de um dia. Não sei se o moleque arrumou o carro e o pai não sabe ou se o pai realmente estava acobertando o menino. Tudo que sei é que aquela era uma casa cheia de gente, mas não tinha nenhum homem. O interessante é que o tempo todo eu esperava o véio bater o telefone na minha cara, mas ele preferia bater boca comigo. E eu já não gosto, né? Acabei soltando a história dos travestis, eventualmente. O véio, sempre solícito:

- Olha, se você quer os seus direitos, vai na justiça. O fórum fica ali na Augusto de Lima.

- Tudo bem. O senhor pode aguardar.

Tentei convencê-lo de que tudo que puder evitar usar a justiça é preferível. Como não consegui, resolvi fazer sua vontade no dia seguinte. Fui ao endereço indicado por ele e me dirigi à atendente:

- Com licença, onde fica o Tribunal das Pequenas Causas?

- Não é assim que fala.

- Perdão?

- Não existe isso de Pequenas Causas. O que existe é o Juizado Especial das Relações de Consumo.

- Tá. Onde fica?

A mocinha me deu um endereço. Fui ao lugar indicado por ela. Lá, pedi informação a um moço de óculos escuros de frente para um computador, que sequer se mexeu. Pensei: “Moço, você é cego, não surdo”. Mas lá me deram um terceiro endereço, onde me pediram uma porrada de documentos. Não dá pra pensar em outra coisa a não ser que eles se esforçam ao máximo para fazer você desistir do processo. A própria mocinha que atendeu disse pra eu ligar pra ver se adianto minha audiência, já que sempre tem gente que desiste no meio do caminho. Tomara que eles aceitem boletim de ocorrência com círculo de café em cima.

E isso é tudo o que eu tenho da história, por enquanto. Mas já se percebe que a parte mais divertida está por vir. Ainda mais se usarem as conversas gravadas. Desde o início, eu pensei em deixar o caso de lado. Quem me conhece sabe que eu não estou nem aí de andar na rua com o carro todo batido. Sou porco, mesmo. Só estou seguindo em frente por causa da atitude idiota dos Carvalhais. E, se eu não ganhar (o que é muito provável), sempre se pode tacar uma pedra no vidro do carro.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Black or white?

Who's Dead. Michael Jackson foi pro saco. Faz um mês que não se fala outra coisa na televisão. Desde a saída do talentosíssimo Augusto Liberato do Dormindo Legal, Celso Portiolli tem entupido a atração com sósias do cantor/dançarino/compositor/boiola. Faltou a equipe do The Didi's Abatedourus render suas homenagens ao Jacko Wacko: Transformei meu blog que era preto em um blog branco. E isso não tem nada a ver com as várias reclamações sobre a preguiça de ler nossos textos gigantes com o fundo preto. Engraçado, eu tinha a nítida impressão de que o fundo preto cansava menos a vista. De quebra, ainda substituímos o antigo logotipo que tinha sido feito no Paintbrush (era para parecer o neon de uma casa noturna) por um feito num site de logotipos. O que não conseguimos ajustar ainda foi essa coisa maluca de cada hora a fonte do texto aparecer de um jeito. Mas estamos trabalhando para servi-los melhor. Postagens novas? Isso a gente vai ficar devendo.

Sinceramente,

Diogo Alves da Silva Torres
Presidente do Grupo The Didi's Abatedourus Night Club Inc.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Eu te amo

Ah, l’amour...O amor é uma coisa tão doce que dá vontade de comer. Tendo em vista a proximidade de uma das datas mais consumistas de que se tem notícia, o tema me veio à cabeça. Não me falha a memória, foram quatro pessoas com quem eu troquei as palavras que intitulam o presente texto. Pelo menos três delas estão casadas. Pelo menos uma tem até filho. Somadas às outras, acho que ao todo tenho pelo menos cinco exes casadas, sendo que pelo menos três delas se casaram imediatamente depois de terminar comigo. Quando digo imediatamente, digo semanas depois. É bem verdade que me livrei de uma fria. Você, mulher, quer se arrumar na vida? Namore comigo e, pouco depois, me dê um pé na bunda. Em questão de dias aparecerá seu príncipe encantado.
Isso mesmo; como o atento leitor pode notar, este humilde servo está passando por uma daquelas fases pela qual todo mundo passa quando se está só: Relembrar o passado e pensar coisas do tipo “o que eu tô fazendo de errado?” e toda aquela babaquice. Permita-me compartilhar com vocês algumas experiências:
Primeiro “eu te amo”: Eu tinha uma namorada que tinha a mania idiota de ficar me escrevendo cartinhas. Isso, apesar de eu ver ela pessoalmente com certa regularidade. Daí ela:
- E aí, gostou?
- Adorei, meu bem.
- E não vai responder não?
- Já disse que adorei.
- Mas eu te mandei uma carta. Você tem que me responder em forma de carta, também.
Oh, a mídia pela qual era dada a resposta era importante. Pfff! E ela estava realmente cobrando que eu escrevesse. Tudo bem, acabei exercitando um lado emocore que eu nem sabia existir. Um dia a menina me chega com duas cartas de uma vez. Mas me entrega somente uma:
- Olha, isso aqui é pra você ler só quando estiver dentro do ônibus, tá? E esta outra, hum...você vai ter que me convencer a te mostrar esta. Não sei se você está merecendo.
“Hum, o que seria um bom argumento para que ela me mostrasse a segunda carta? Quer saber? Acho que chegou a hora”.
- Eu...
Parei aí. Mas ela repetiu o “eu”, como que pra me ajudar a formular o pensamento.
- Te...
Parei de novo. Mas ela repetiu o “te”, como se estivesse ajudando um menino do maternalzinho a falar. Filha da puta já sabia o que eu ia dizer com antecedência.
- Amo.
O “amo” saiu miudinho, quase inaudível. E ainda abraçado, com vergonha de ela ver minha cara. E ela respondeu:
- Eu também te amo.
Na hora pensei: “Ela nem pensou no que disse; me pareceu resposta automática: ‘Eu te amo’, ‘eu também te amo’”. E eu estava tão nervoso que comecei a tremer igual uma véia reumática.
- Porque você está tremendo tanto?
- É o frio, beibe. É o frio.
Ela me entregou a segunda carta, que foi aberta assim que entrei no ônibus. A carta dizia, precisamente: “Blábláblá eu te amo blábláblá”. É, realmente não tinha sido apenas uma resposta automática.
Segundo “eu te amo”: Foi depois de uma briga. Se bem que, no dia anterior, ela tinha me dito um “eu te adoro”, devidamente respondido por mim com um “eu também te adoro”. “Adoro” é um “amo” sem muito constrangimento caso não haja uma resposta de igual valor. Tá mais para um “te considero pra caralho”.
A briga tinha sido uma crise de ciúmes quando ela descobriu que eu já tinha ficado com uma amiga dela, anos antes. Houve um pouco de cara amarrada, choro e tudo mais. Depois de brigar muito, a gente deita de conchinha e ela solta um “eu te amo”. Como mijar em volta só deve servir para os cachorros, essa foi a maneira encontrada por ela para demarcar território.
Parei uns segundos e pensei nas duas semanas que a gente tinha juntos. Finalmente respondi o aguardado “eu também te amo”, mas quer saber de uma coisa? Foi extremamente sincero. Com o tempo, fui descobrir que meu namoro com essa daí só tinha graça quando a gente brigava. Quando batemos o recorde de ficar dois meses sem brigar, terminamos.
Terceiro “eu te amo”: Acho que enrolei a interlocutora por quase seis meses antes de assumir um namoro. Pelo menos no início, sempre era ela que vinha atrás de mim. Tendo isso em vista, eu tinha a segurança de que poderia dizer um “eu te amo” a hora que quisesse que a resposta correspondente viria com certeza. Um dia, quando a gente tava deitado de conchinha, percebi que tinha chegado a hora. Então soltei:
- Você me ama?
- Olha, tô quase lá, viu?
- Bem, já eu, te amo.
- Hum, que bom.
Ui! Essa tinha sido na boca do estômago. Eu só tinha dito aquilo porque achei que era o que ela queria escutar. Achei que ela pensasse o mesmo, mas queria que eu dissesse antes para não fazer papel de trouxa. Então dei a deixa. Fui praticamente um Dedé Santana, servindo de escada.
De qualquer forma, a resposta veio. Um pouco atrasada, é verdade. Para ser exato, foram duas semanas de hiato entre a constrangedora cena descrita acima e sua devida resposta. Foi num buteco. Com a cara meio torta e o olhar de farol baixo, bebum, ela diz:
- Posso falar uma coisa?
- Pode.
- Mas você vai achar que é coisa de bêbada.
- Vou não. O que é?
- Eu te amo.
E disse isso balançando a cabeça para cima e para baixo, como que para confirmar a frase. No dia seguinte, enquanto comíamos patê com torradas, ela confirma:
- Agora que estou sóbria, posso repetir. Eu te amo.
- Tudo bem, eu já tinha dito que te amava também.
Quarto “eu te amo”: Esta, inclusive, foi interessante a primeira vez que trocamos saliva. A gente mal se conhecia e tinha ido ao cinema. Chegamos atrasados, então nem tivemos tempo de conversar direito. Eu nem prestei atenção no filme. Fiquei o tempo todo pensando que hora seria mais oportuna para agarrá-la. Acabou a sessão e ela:
- E aí? Gostou do filme?
Enfiei minha língua na garganta dela. Além de não ter respondido a pergunta, completei:
- Eu tava só esperando o filme acabar, beibe.
O “eu te amo” propriamente dito foi depois de um tempo de namoro, enquanto estávamos deitados de conchinha, vendo televisão. De uma hora para outra ela olha para mim e diz:
- Hum.
- Que foi?
- Hum.
- Tá doida?
- Eu amo o Didi.
Disse isso gritando. A frase veio um pouco diferente do que o usual, mas como Didi era eu, o espírito da mensagem foi o mesmo. Não me lembro se respondi na hora ou se foi depois.
Então é isso, pessoal. Pra finalizar, eu gostaria de mandar um recado para você que encontrou uma pessoa especial na sua vida. Alguém com quem trocar as palavras que intitulam o texto e, lógico, trocar presentes no próximo dia 12: Vai tomar no meio do seu cu.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Despontando para o anonimato

Markim, Dexter e Múcio eram caras que, desde o prezinho, estudavam juntos. Eram algo que podia se chamar de uma patota. Mas não eram populares. Aos 15 anos de idade, veio a época de querer pegar mulher. Os três eram cabaço. Hum, como fazer? Foi Markim quem teve a idéia, depois de ver um clipe de hip hop, cheio de negonas de shortinho:

- A gente podia fazer uns raps.

Os outros dois, em uníssono:

- Raps???

- É. Esses caras enchem o cu de grana e vivem cheio das mina..

- Markim, não diga “mina”. Você não é rapper. E é branco. E eu e Múcio também somos. Quem sabe outro estilo.

Quem disse isso foi Dexter. Múcio era o mais tímido dos três. Mas bastou ouvir as palavras “outro estilo” para que no dia seguinte ele soltasse essa:

- Compus um pagode.

Os outros dois, em uníssono:

- Pagode???

- Bem, você disse “quem sabe um outro estilo”, Dexter.

Sempre um incentivador, Dexter diz:

- Rá! Quero só ver essa merda. Solta lá, Kid Mumu.

- Agora eu fiquei com vergonha.

- Eu sabia que desse jacu não saía nada. Vamo embora Markim, que a gente tem que fazer ainda o trabalho da Dona Vilma.

Os dois deram de costas e já estavam quase fora de casa, quando Múcio tremulamente tira o pequeno papel amarrotado do bolso e começa a lê-lo timidamente. Sua voz era miúda, mas parecia que ele estava cantando uma espécie de pagode:

- Toda hora, todo dia \ Eu quero dar o bombs, eu quero dar o bombs, eu quero dar o bombs \ Em cima da cama, em cima da pia \ Eu quero dar o bombs, eu quero dar o bombs, eu quero dar o bombs.

- Hahaha.Que porra é essa, Mumu?

- Pagode.

Entretanto, a idéia de ter uma banda foi crescendo dentro dos rapazes. Tendo noção do grande potencial que tinham, Dexter disse:

- Com o que a gente sabe só dá pra tocar punk rock.

Ao ouvir isso, Markim se adiantou:

- Nóóó, rolava mesmo. Tô pensando até numa música de protesto aqui. Algo do tipo: Essa sociedade está cada vez pior \ o homem joga lixo no chão \ corta os outros pela direita \ faz sexo sem camisinha...

- Dá pra parar de gritar ou tá difícil, Markim?

- Como chama essa música?

- Cu D’água.

- Um bom nome.

- Não, eu tô falando que esse bosta do Dexter é um cu d’água.

- Nosso primeiro hit.

Certo dia, o trio foi até a Praça da Estação fazer uma pesquisa. Era outro trabalho de história para Dona Vilma. Markim solta:

- Moçada, não é aqui não. Olha lá na placa: Praça Rui Balboa. Olha lá: Tem até uma estátua em homenagem ao Rocky, personagem imortalizado pelo saudoso Sylvester Stallone.

- Ô jegue, é Rui Barbosa. E o Stallone ainda não morreu.

- Ruy Balboa. Parece mais a junção de Ruy Chapéu e Rocky Balboa.

- Um bom nome para a nossa banda.

A última frase foi dita por Múcio. Por meses, a idéia da banda ficou só nas conversas. Markim teve um espasmo de brilhantismo:

- E se a gente começasse a tocar hein? O que acham?

Compraram uma guitarra e um baixo e começaram os ensaios. De olho na mulherada que podia ganhar, Dexter já foi logo pegando a guitarra pra si. Markim ficou na bateria e o baixo sobrou para Múcio. E isso porque os ensaios eram na casa dele. Senão ele ficaria de castigo na bateria mesmo. Ainda mais porque ele nunca falava porra nenhuma, mesmo.

A casa de Múcio tinha sido escolhida para os ensaios por vários motivos logísticos. O principal deles era a existência de um freezer horizontal lotado de cerveja. O pai de dele sempre fazia churrascos com a rapeize do trabalho no fim de semana. E os jovens músicos se encarregavam de acabar com tudo que sobrasse durante os dias letivos. Umas duas ou três vezes na semana Dexter e Markim invadiam a casa. Dona Marta, mãe de Múcio, os recebia:

- Vocês são do grupo de ensaio do meu menino?

- Somos, somos.

Falavam isso enquanto folgadamente entravam na casa e iam avançando sobre o freezer horizontal. “Grupo de ensaio” era ótimo. Mais bebiam cerveja do que tocavam, era verdade. Ainda mais Markim, que tinha distúrbios de hiperatividade e déficit de atenção. Dexter fazia a contagem:

- 1, 2, 3 e...

- Velho, você viu Lost ontem?

- Vi, mas depois a gente fala sobre isso. Vamo tentar do princípio denovo.

- Do prepúcio?

- Do princípio, jegue. Vamo lá: 1, 2, 3 e...

- Nossa, olha só quem tá na capa da Veja essa semana.

- Assim fica difícil, Markim. É pra gente fazer assim ó: 1, 2, 3 papa tum pá.

Era muito difícil tocar com alguém que tivesse distúrbios de hiperatividade e déficit de atenção. Mas Markim tinha o principal: Atitude punk rock. Por falar em punk rock, como toda banda iniciante e picareta, metade do repertório dos meninos era de músicas batidas dos Ramones, incluindo Hey Ho Let’s Go.

Um leitor mais atento deve ter percebido que não foi comprada a bateria. A princípio não era necessário já que a irmãzinha de Múcio tinha uma bateriazinha de brinquedo. Era um tanto quanto engraçado ver Markim sentando a mão naquela bateriazinha rosa, tocando um hardcore ultrapodreira. Mas era o suficiente para infernizar Dona Marta, que não conseguia ver a novela da tarde sossegada. Toda hora que dava propaganda, ia lá na garagem:

- Gente, vê se toca baixinho, senão vocês vão perder a bocada.

- A gente vai tentar, biscate.

- Olha o jeito que você fala com a mãe do cara, Dexter.

- Por que vocês não levam essas duas guitarras de vocês pra um desses estúdios de bateria?

Dona Marta se mostrava uma verdadeira conosceur do assunto dizendo termos como “grupo de ensaio” ao invés de “banda” e “estúdio de bateria” ao invés de, simplesmente, “estúdio”. O mais legal era que, sempre que falava a palavra “bateria”, a véia sacolejava os braços, como se estivesse tocando. Era o Neil Peart do air drum. Outro detalhe: Apesar seu filho tocar contrabaixo, ela sempre achou que aquilo fosse uma guitarra. Reparando que no instrumento do amiguinho do filho tinha duas cordas a mais, disse:

- Por que a guitarra dele tem mais corda? É porque ele toca melhor? Olha meu filho, se ele pode, você também pode. O dia que eu for no centro, vou comprar mais duas cordas pra você, tá?

Os meninos do Ruy Balboa tinham um amigo punk, chamado Joca. Quer dizer, punk, puuunk o menino não era, já que estudava em colégio particular. Mas ele tinha o principal para ser considerado punk: Pose. E umas roupas com tachinhas.

Uma vez por mês, o colégio de Joca abria espaço para o aluno que tivesse algum “grupo de ensaio” tocar. Joca não tinha banda, mas tinha amigos que tinham. Solução: Ele fingiria que fazia parte da banda, tocando com uma guitarra desligada. Tocaram quatro músicas durante o recreio e ninguém descobriu a farsa. Na verdade, a performance de Joca foi super elogiada. Apesar de ninguém ouvir nada, toda a pose dava a impressão de que o menino tocava pra caralho.

E foi assim que Joca entrou na banda. Eram três caras com atitude punk rock e um moleque inexpressivo, que só se mantinha na banda por ceder o lugar para os ensaios. Múcio basicamente só executava aquilo que os outros o mandavam fazer. Um dia, quando estava apenas com Markim e Dexter, Joca disse:

- Gente, eu quero esse cara fora da banda.

- Tá. Mas quem vai tocar baixo?

- Porra, a gente não precisa de duas guitarras pra tocar punk rock pelo amor de Deus. Você toca o baixo, Dexter.

- Mas foi o Múcio que deu o nome para a banda. Será que a gente devia mudar?

- Ele registrou em cartório?

- Não.

- Então não precisamos mudar o nome.

Aparentemente estava tudo resolvido para que os jovens trilhassem o caminho para o sucesso. Cheios de atitude e com um som pop. Não tinha como dar errado. Outro espasmo de brilhantismo de Markim:

- Aqui, não seria melhor se alguém avisasse ao Múcio que ele está fora da banda?

Tiraram na porrinha. Quem tivesse a porra maior teria que se confrontar com o mosca morta. Sobrou para o cheio-de-dedos Dexter:

- Mumu, o pessoal quer você fora da banda.

- Uai, beleza.

- Ammm, posso pegar uma cerveja?

- Uai, beleza. Vocês querem que eu ajude a levar os instrumentos?

Muito tenso esse dia. Mas foi o necessário para a banda começar a crescer. Onde iam faziam propaganda. Uma vez, voltando de um ensaio, agora feito exclusivamente em “estúdios de bateria”, Markim puxa papo com o taxista:

- Amigo, a gente tem uma banda. Qualquer dia que o senhor for fazer uma festa na sua casa é só chamar a gente.

- Chamo sim, pode deixar.

- A gente tá na lista.

Tinha chegado a hora de gravar a primeira demo com cinco músicas. Houve algumas pequenas confusões. Por exemplo, no dia e horário da gravação, o dono do estúdio reservou o espaço para outra banda ensaiar. Antes que a banda quebrasse o pau, o dono do estúdio tenta negociar:

- Caras, deixa eu fazer uma proposta para vocês. Deixa só eu encostar a porta, porque esse tipo de coisa se resolve com porta fechada.

- Olha velho, você não vai chupar a minha rôla.

- Ah não? Então esquece.

Além dessa, teve outra confusão: Depois de meses ensaiando as músicas da demo, Markim chega no dia da gravação, dizendo:

- Moçada, mudei um pouco as introduções de bateria.

Na verdade, ele tinha mudado era tudo. Os outros dois não estavam conseguindo entrar, já que tinham ensaiado de outro jeito. Começa a discussão:

- Porra, vocês dois tão de palhaçada comigo.

- Palhaçada? Você muda tudo no dia da gravação e quem tá de palhaçada é a gente, ô filho da puta? Vai tomar no seu cu.

- Vem fazer.

O mais legal é que discutiam de costas um para o outro, já que cada um dos três estava numa cabine do estúdio. Tinham que abaixar a cabeça para xingar pelo microfone. Markim era tão ôreia que entortava a cabeça para xingar no microfone da bateria.

Entre mortos e feridos, o disco saiu. O produtor do estúdio ainda conseguiu a façanha de tirar todo o peso do som da banda e transformar o hardcore ultrapodreira em punk universitário. Quando a produção ficou pronta, ligou para os meninos:

- Cara, posso falar uma coisa? Tá profi.

- Mas que porra sem graça é essa? Cadê o peso? E que história é essa de punk universitário?

- Algo como um punk rock que tocaria no filme American Pie. Como vocês se vestem como skatistas e tem muitas músicas que falam sobre levar pé na bunda, achei que era isso que vocês estavam procurando.

O produtor tinha razão. Sendo assim, ao invés de se vestirem de skatistas, os moleques do Ruy Balboa passaram a somente fazer shows de pijama. Isso só podia ter sido idéia de Markim. Markim este que tinha também a idéia de que eles fizessem um show pelados. Quer dizer, não pelados, já que usariam uma meia no breguete. Mal percebiam que isso acentuava ainda mais sua faceta punk American Pie. A platéia ia ao delírio:

- Nossa, os caras são loucos! Olha só, tocando de pijama!

Joca era diabético. Precisava de diariamente aplicar uma injeção de insulina na coxa. Um dia isso aconteceu no horário de um show. Em cima do palco, desceu as calças e aplicou a injeção.

- Nossa, o cara é louco! Rock n roll! Uhuuu!

Entusiasmado pela reação do público, começou a fazer isso mais vezes. Joca era o que mais se deixava levar pela reação da platéia. Um dia entusiasmou e baixou as calças com cueca e tudo e mostrou para o público o Ruy Balboa Jr. Vendo que o público ia à loucura, perdeu a noção e mirou em alguém que estava no gargarejo. Um jato de mijo saiu. A pancadaria acabou com o show pela metade.

Desde então a banda começou a desandar. Toda vez que marcavam ensaio, alguém tinha um churrasco para ir ou alguma prova para estudar. A banda já não era mais prioridade. Joca era o que mais enrolava os companheiros. Um dia apareceu algo que poderia mudar o rumo da banda: O primeiro convite para tocarem com cachê. Markim e Dexter se entusiasmaram, mas Joca disse:

- Galera, foi mal, mas tem final do Campeonato Mineiro neste fim de semana.

Contrariados, Markim e Dexter então negaram o convite e foram afogar as mágoas assistindo ao show do Silent Bob & The Jay Jay’s, a maior banda da cidade. E quem eles vêem como o novo guitarrista da banda? Isso mesmo, Joca.

Estava tudo explicado: Joca andava ensaiando escondido com uma banda famosa e não encontrava como falar com os amigos. Markim e Dexter tentaram resgatar Múcio de volta, mas quando ligam descobrem que o menino tinha se matado no dia depois que foi expulso da banda.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Então, vamos dar uma olhada nesse seu pênis

Desde pequenininho, quando ainda não era (nem tinha) porra nenhuma, Bernardo ia anualmente ao consultório da doutora Heloísa. Sempre por volta do mês de junho a mãe do moleque marcava consulta na pediatra:

- Meu filho, toma um banho bem tomado e bota cueca limpa que hoje a gente vai lá na doutora Heloísa.
- Ah não mãe, de novo não. Eu não gosto de ir na doutora Heloísa. A gente tem que ficar pelado e ela fica pegando no piru da gente.
E ele fazia questão de ir sujo e com a cueca mais rasgada que tinha. Que mulher folgada! Se ela via ele pelado de graça, (aliás, era paga para isso), que pelo menos fizesse por merecer. É relevante mencionar que Helô não era nenhuma doutora gatinha ou coisa assim. Era sim uma véia de uns 40 e poucos anos. Ao ver o pequeno Bernardo afundado no sofá do corredor, tenso, apertando a mão da mãe, a médica falava, por traz dos óculos a meia-altura do nariz:
- Você tem consulta comigo agora.
A frase vinha num tom aterrorizante, acompanhada de um dedinho indicador curvado e se mexendo, chamando o menino. As perguntas que a doutora fazia eram sempre bem constrangedoras para uma criança daquela idade:
- E então, você tem sentido alguma mudança nesse seu pinto?
O fato de a pediatra falar “pinto” sempre que se referia ao órgão sexual do menino causava certo choque. Quando ele brigava com o irmãozinho e falava “pega no meu pinto, desgraçado”, a mãe lhe dava um tapão na boca. Não lhe parecia profissional uma médica ficar falando palavrão assim, ainda mais na frente dele, que era criança. Que exemplo, doutora Heloísa!
Ele até entendia que a médica queria usar palavras que fossem compreensíveis pelas crianças. Mas, se ela falasse “peru”, “piupiu”, “passarinho” ou o nome de qualquer outra ave teria sido melhor. Agora, “pinto” era palavrão. Que pelo menos falasse no diminutivo, para amenizar. O pior foi a vez que Heloísa colocou na sua frente um quadro que devia ter umas vinte rôlas. Parecia um canavial:
- Bernardo, me diga com qual dessas fotos você mais se parece.
Ele entendeu o que a doutora quis dizer com aquilo, mas a vontade era de responder algo tipo: “olha, não é por nada não, mas a senhora tá me chamando de cara de que?”. Durante quase toda a consulta ele tinha que ficar só de cueca. Teve vezes que ficou tão nervoso que chegou a empolar.
Aos dez anos, Bernardo descobriu a punheta. Tinha um canal da TV a cabo que passava filme pornô com a imagem destorcida. O moleque tá que mexe na sintonia fina para melhorar a imagem. E via o filme entortando a cabeça (de cima), tentando ver qualquer coisa. Mas era o suficiente para o menino ficar doidão. “Deve ter um jeito de fazer isso sem mulher”.
Foi até o banheiro e pegou um rolo de papel higiênico. Colocou sua rôla dentro do rolo. Como tinha apenas dez anos, coube com folga. Mandou ver. Com o tempo, começou a variar de parceira. A melhor delas era o pão de cachorro quente. Ao invés da salsicha do supermercado ele colocava a sua. O importante era não sentir a própria mão:
- Oh, não sou eu, não sou eu!
A atividade começou a ocupar muito tempo das suas tardes. Seu rendimento escolar, naturalmente, caiu. Um dia seu pai precisa sair do escritório e voltar em casa para buscar uns papéis importantes. Pega o menino em plena performance. Num tom de desaponto, diz, balançando a cabeça:
- Vai estudar, Bernardo.
O menino havia aprendido uma valiosa lição: Trancar a porra da porta! De qualquer forma, sempre que tinha consulta com a doutora Heloísa, resolvia antes um assunto sério no banheiro. Afinal de contas, a mulher ia pegar no pinto dele. Era bom não arriscar ficar excitado durante a consulta.
Houve outro flagrante. O incidente na fazenda do tio Fred. O moleque estava muito doido. E, claramente, Mimosa estava dando mole para ele. Sem nem levar a ruminante para jantar nem nada, Bernardo sobe num banquinho e créu na vaca. Pelo cu, ainda.
De uma hora para putra, Mimosa tranca tudo e prende o taradão pela rôla. Bernardo tenta se soltar e nada. Ao sentir que ia ter o pinto decepado, grita pelo tio. Vendo que era impossível libertar o moleque, tio Fred se viu obrigado a pegar a espingarda. Deu dois tiros em Mimosa. Bernardo fez o tio jurar que ia guardar segredo.
O tempo passa e Bernardo pára de se consultar com a doutora Heloísa, que já havia praticamente se tornando um membro da família. Tinha visto aquele menino crescer (ainda bem que não em todos os sentidos). Ele começa a vida sexual. Com pessoas. Como era inexperiente, faz as coisas meio afobado. Tão afobado que se machucou, bem abaixo da glande.
O machucado começou a infeccionar. Inchou. Depois o inchaço foi crescendo e chegou um ponto que sua rôla mais parecia uma lâmpada. E doía horrores. E como lavar? Ardia só de jogar água, quanto mais ficar esfregando. Com a maior dificuldade colocava a cabecinha para fora. Doía muito desenrolar o capuz inchado. Enchia uma caneca com água, contava até três e afogava o ganso lá dentro. Doía ainda mais, mas era o único jeito. Repetia a operação até sentir-se mais ou menos limpo.
O pior de tudo é que, mesmo durante esse período, ele continuava sentindo tesão. Era mais difícil bater punheta. Precisaria das duas mãos. E cada movimento era acompanhado de um uivo de dor, mas a força de vontade era maior.
Procurou na internet saber sobre seu problema. Pelas DST’s que encontrou, tinha uma que se encaixava perfeitamente no que estava sentindo. À medida que ia lendo sobre os sintomas da doença, automaticamente começava a senti-los. Leu: “o paciente sente dores na virilha”. Na mesma hora sentiu a virilha doer. Tentou esconder da mãe o máximo que pôde, mas agora não tinha mais jeito. Teve que contar a ela que precisava ir no médico de rôla, sem entrar em detalhes. A mãe toma o menino pela mão e vai ao médico. Na recepção:
- Boa tarde, meu filho está precisando ver um urologista.
A fila do hospital estava lotada. A recepcionista olha para a cara do menino de 15 anos e, como quem não sabe a função de um urologista, pergunta, para deixá-los sem graça:
- Pois não, o que o paciente tem?
- Ammm, o meu filho está com um problema no pênis dele.
Tentou falar de modo que quem estivesse atrás na fila não escutasse. Minutos depois estava no consultório do doutor Bráulio. Depois de relatar ao médico o que sentia:
- Ok, então vamos dar uma olhada nesse seu pênis.
A Bernardo parecia viadagem que alguém optasse por essa área da medicina. A experiência foi traumatizante. Pelo menos o doutor Bráulio explicou que não havia nenhuma doença venérea com ele. Apenas receitou uma pomada do tipo Gelol.
- Hum...e quando é que eu vou poder...ééé...retornar...às minhas atividades...
Teve que passar a andar sem calça dentro de casa por uns dias. Passava a pomada e ficava com a glande exposta. E olha que tava na época do frio. Assistia televisão, fazia para-casa, tudo sem calça. E a porta do quarto trancada. Mas havia prometido a si mesmo que nunca mais ia a um urologista.
Anos depois, Bernardo sente novas mudanças na textura de seu membro. Novamente vai no Google procurando respostas. Relutava em ir a um médico de rôla. Foi então que procurou saber se a doutora Heloísa ainda atendia. E sim, a doutora Heloísa ainda atendia. Atendia crianças de até 12 anos, e ele tinha quase o dobro. Mas ele não se consultaria com outra pessoa que não fosse aquela velha, com quem ele custou tanto a adquirir confiança. Não contou à mãe e foi até o consultório de Helô. Ao contrário dele, ela continuava com a mesma cara. Velho não muda nunca; é sempre velho.
- Oi, a senhora está lembrada de mim?
“Se ela não se lembrar, eu baixo as calças. Será que dá pra reconhecer alguém pela rôla?”. Na mesa da pediatra, viu a plaquinha: Doutora Heloísa Capado. Quando criança, ele nunca tinha se dado por conta da ironia. O sobrenome da velha era Capado! De qualquer forma, sabia que não ia ser fácil convencê-la. Apelou para todo tipo de chantagem emocional. Eventualmente, ela cedeu:
- Vamos lá, Tia Heloísa. Pelos velhos tempos!
- Tá bom, tá bom. Deita lá na cama. Vamos dar uma olhada nesse seu pênis.
A médica analisava, sempre com os indefectíveis óculos a meia-altura. Novamente não se tratava de algo grave:
- Isso é folículo piloso.
- Quê?
- Pêlo encravado.
- Oh!
- E mais uma coisa: Você não deve lar seu pênis com sabonete, porque tira a gordura que protege ele. Só água já basta.
A idéia pareceu-lhe nojenta. Depois do alívio, ele rapidamente vestiu as calças e saiu correndo do consultório, dando um tapa nas costas da senhora:
- Olha, obrigado por tudo. Foi um prazer revê-la.
Aquela visita inusitada ficou na cabeça de Heloísa por muito tempo. Tanto que a inspirou a dar uma guinada na carreira. Não havia nenhuma lei que impedisse uma mulher de ser urologista. Depois de um tempo, especializou-se. Uma escolha acertada. Por ser uma das pouquíssimas mulheres na área, tinha um diferencial. Seu consultório vivia cheio. De vez em quando aparecia um velho com intenções não lá muito puras, mas isso era facilmente driblado. Com um spray de pimenta, que tinha embaixo da mesa. O nome de Heloísa Capado cresceu tanto no meio que ela começou a dar aula na universidade.
A essa altura, Heloísa já devia ter uns 70 e poucos anos. E Bernardo, 40 e poucos. A idade de fazer o exame do toque retal. Ele não poderia pensar em outra pessoa para enfiar o dedo no seu cu que não fosse a doutora Helô. E ele já tinha ficado sabendo que sua velha amiga agora era urologista. Marcou a consulta. O que ele não esperava é que a doutora ia dar aula justamente na hora marcada com ele. Resultado: Ele ficou de costas, com o cu de fora, enquanto a turma inteira assistia:
- Veja bem gente, ao fazer o toque retal, você deve verificar se não há nenhum inchaço. Desta maneira. Vamos ver se vocês aprenderam. Joaquim, tente você.
- Assim, professora?
- Não precisa colocar tanto o dedo. Mariana, vai você agora.
Depois da consulta, após ter sido molestado por 15 alunos, Bernardo sai correndo da sala olhando para baixo, sem encarar ninguém. Entra no primeiro elevador:
- Me desculpe, meu senhor, mas esse elevador aqui é somente para funcionários.
- Ah é? E me diga uma coisa: Alguma vez você teve 15 pessoas enfiando o dedo no seu cu?
- Ammm, acho que não.
- Então não me enche o saco e me leva logo embora daqui.


Ok, eu sei o que todos vocês estão pensando de mim. Mas vocês viram o título do texto lá em cima. Se você chegou até aqui, é porque há algo de doentio na sua cabeça também. Pense pelo lado positivo: Eu não coloquei fotos. Eu sei que as pessoas não gostam dos meus textos desse tipo. A uns dias atrás eu fui no urologista e não tinha dinheiro para passagem (de novo). Fui a pé de lá até o trabalho e, no caminho, essa história me veio inteira na cabeça. E quem escreve sabe: Quando a inspiração chega, você é obrigado a escrever. Independente de as pessoas gostarem ou não.

domingo, 5 de abril de 2009

Olha a mão, olha a palhaçada

É verdade que ninguém sabe o que pode vir a acontecer no futuro. Mas uma coisa pra mim é certa: Vou ficar careca. Faz anos que o processo de destelhamento começou por aqui. E, como não me vejo nadando em um mar de grana, provavelmente serei um velho careca e pobre. Daí penso: Como é que vou fazer pra pegar mulher no futuro? Preciso pelo menos cuidar do corpo. Vou ser um coroa saradão. Careca, porém sarado. Sim, porque atualmente tenho um corpo que até dá pro gasto (minhas roupas não me fazem justiça), mas e daqui uns anos? É preciso cuidar cedo.
Por essas e outras decidi entrar na academia. Tudo que eu queria era dar uma definição muscular. E dar um jeito nessa bunda que mais parece duas luas, com tantas crateras. Se você pensa que bunda de homem não tem celulite, um dia eu te mostro. Também queria ter um daqueles abdomes em que dá até pra lavar uma calça jim nele. Mulherada curte essa parada.
Devia fazer quase um ano que eu dizia: “Segunda feira eu vou lá na academia. Quando chegar o verão eu vou na academia. Em janeiro eu começo academia. Depois das férias eu começo. Melhor, depois do carnaval, pra dar sequência”. Quando finalmente tomei coragem paguei seis meses de uma vez, pra não ter desculpa.
Longe de mim ser um Schwarzenegger (palavra usada na final do Soletrando). Aliás, não entendo como é que um cara entra nessa de fisiculturismo. Sim, porque todo mundo que começa a malhar entra nessa para impressionar a mulherada. Mas até hoje não conheci uma mulher que gostasse de homem musculoso. E não há nada de macho naquilo.
Outro dia eu tava vendo Gugu (vendo não, mudando de canal) e tava tendo uma exibição de fisiculturistas besuntados de óleo. Parecia um monte de frango assado usando sunga. Por falar em sunga, a deles era minúscula, atochadinha, mais parecia uma calcinha. Oh sim, macho pra caralho! E outra: Dá pra perceber que a rôla dos caras atrofia. Não que eu fique reparando nessas coisas, mas é que a câmera dá um close. O que eu devia fazer? Virar pro lado?
Ouvi dizer que o uso de esteróides pode também deixar o cara impotente. Adianta querer impressionar a mulherada? Nunca mais vai poder comer uma mulher na vida. Como fazer para descarregar as energias? Só malhando mais. O governo devia parar de gastar nosso dinheiro com bobagem e investir em propaganda contra o uso de anabolizantes na televisão:
- Olá, meu nome é João Castro Pinto. Eu usei anabolizantes e fiquei assim.
Aí o cara se levanta, abaixa as calças e mostra a minhoquinha.
Lembro-me de certa vez em que eu estava dando aula e conversando com um aluno, formado em educação física, sobre o jeito ideal de se fazer abdominal:
- Deita aí, professor. Vamos fazer juntos.
Tá lá dois homens deitados no chão da sala de aula, fazendo abdominal. Se alguém chegasse e visse, ia ser lindo. O cara põe a mão na minha barriga:
- Tá vendo como dessa maneira trabalha mais essa área aqui?
Pensei: “Olha a mão, olha a palhaçada”. Mas sei lá, o cara trabalha com isso. Deve ser normal. Tanto é que, quando eu fui fazer avaliação física na academia, fui igualmente molestado. Começou com uma entrevista:
- Qual é o seu objetivo?
- Pegar mulher.
- Entendo.
- Na verdade, meu objetivo é dar uma harmonizada no corpo.
- Harmonizada?
- É. Eu tenho a metade de baixo do corpo muito grande e a metade de cima muito pequena. Eu queria ver se tinha como dar uma invertida nisso.
Depois da entrevista, o cara tá que passa a mão em mim, me manda subir o short para ele medir sei lá o que da minha coxa. E sempre olhando nos meus olhos. “Olha a mão, olha a palhaçada”. Pensei: “Devem aproveitar muito quando é mulher”. Profissionalismo o escambal! O cara esquece que é homem quando está avaliando? Depois, me manda tirar a camisa. Hum. E se fosse mulher? Ia mandar fazer topless na tora?
No meio, a avaliação é interrompida. Meu batimento cardíaco acelerou além do normal. Antes que um apressado leitor ache que foi por emoção devido à bolinação do avaliador, adianto que eu estava pedalando uma bicicleta ergométrica no momento.
- Olha, por segurança, vou precisar de um atestado médico seu antes de te liberar para a musculação. Provavelmente devido ao longo período de extrema inatividade, sua pressão aumentou.
Parecendo não estar satisfeito, resolveu me humilhar mais um pouco:
- Outra coisa: Você tem um problema de postura. Por causa da flacidez da sua barriga, seu tórax está pesando muito a sua coluna. Mas você está liberado para fazer natação, por enquanto.
Pois bem, comprei uma toca, um óculos, uma sunga e comecei a natação. Já repararam que as pessoas ficam com cara de doidas usando os trajos para nadar? O professor:
- Qual é o seu nome, fera?
- Diogo.
- Diogão, entra nessa piscina pra mim.
Porque é que todo professor chama seus alunos pelo aumentativo? Será que isso faz parecer que são velhos amigos? O pior é o horário das aulas: 11:00 ás 12:00. A melhor hora pra pegar um câncer. Fiquei preto. Estava parecendo aqueles caras que cortam coco na praia. Eu acho até legal ganhar uma corzinha nas férias, mas minha natureza é branquela. Bronzeado, fica parecendo que eu estou eternamente de férias. Se você acha ridículo um homem usando sunga, não sabe que o mais ridículo é que, bronzeado, quando ele tirar a sunga, vai ficar parecendo que ele ainda está usando uma. Branca. E com um risco no meio.
Tem mulheres que fazem aula usando daqueles maiôs enormes da década de 50. Fica na cara que é por vergonha do corpo. Mas se estivesse usando um biquíni normal, chamaria bem menos a atenção. Se não é vergonha, é preguiça de se depilar. Imagina a marca de sol de quem usa um maiô desses. Por falar em ridículo, passei vários dias arrotando cloro.
Dias depois fui ao centro para pegar meu atestado. Se eu não tivesse convênio, a consulta sairia 100 reais. E o médico me chega 40 minutos atrasado. O cara era sorridente e tinha um jeito que lembrava o Roberto Carlos:
- Pois não meu amigo, em que posso ajudá-lo? Hehehe.
- È que eu preciso de um atestado para começar a academia.
- Que besteira hein, cara? Hehehe.
Se eu ganhasse 100 reais em menos de 15 minutos igual o doutor, também seria assim, sorridente. O cara me manda tirar a camisa e deitar na cama para fazer o eletrocardiograma. Analisa algumas partes do meu corpo. “Mão, palhaçada”. Em alguns lugares eu me segurei, mas senti cócegas.
Como eu nunca tenho que fazer nada no centro, não sabia quanto era a passagem do ônibus. Peguei uns trocados e, por segurança, uma nota de 50. Trocados insuficientes. Ficou faltando 10 centavos. Senti-me tão chique por nem saber quanto custava o ônibus. Fiz o que qualquer pessoa sensata faria no meu lugar: Comprei um sorvete cascão enorme para pegar o troco. Eu ia começar a malhar; não fazia mal ganhar algumas calorias.
Finalmente começo a academia propriamente dita. Lugar cheio de espelhos. Qual é o lance de você ficar se sacando enquanto levanta uns pesos? Quer dizer, todo mundo finge que não tá olhando, mas dá pra ver que dão uma admirada em si, de soslaio. Aliás, eu sei que sou magro, mas tenho a nítida impressão de que espelho de academia foi feito para você parecer mais magro do que realmente é. Só pode.
Depois de alguns dias, me acostumo com os pesos. A instrutora olha pra mim:
- Diogo, você não está levantando pouco peso não?
- Não, pode deixar. Assim tá bão.
- Aumenta, Diogo!!!
Observei que sexta feira é o dia mais lotado na academia. Eu até entendo que as pessoas queiram ficar com o corpo em dia para o fim de semana, mas eles realmente pensam que em apenas um dia vão compensar tudo que não fizeram durante a semana? Notei também o cuidado e atenção que os personal trainers tem com suas alunas: “Olha, olha”. Se essas mulheres não dão ou sequer sentem vontade de dar para esses caras, eu sou Vovó Mafalda.
As aulas sempre acabam com bicicleta. Me parece sem sentido se aquecer depois que já se fez os exercícios, mas sei lá, eles entendem disso melhor do que eu. Aliás, todo o conceito de bicicleta ergométrica me parece sem sentido. Você pedala, pedala, e não sai do lugar. Pelo menos eu fazia bicicleta em frente uma televisão ligada no Chaves. No começo, a moçada ficava estranhando que eu era o único que fazia bicicleta dando risada. Com o tempo, muitos passaram a disputar espaço em frente á televisão.
O mais legal foi quando chegou a conta da consulta na casa da minha mãe, dias depois:
- Diogo, meu filho. Que história é essa de eletrocardiograma?

Obs: Meu amigo Ranieri foi meu professor de comédia stand-up e cunhou o termo “olha a mão, olha a palhaçada”.

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